quarta-feira, 29 de abril de 2026

O Menino da Tropa

 



O Menino da Tropa

Poção, interior de Dom Inocêncio, Piauí. 1962.

Adão tinha oito anos quando Plínio botou ele na tropa. Ia pra Ouricuri, na Bahia, e menino de parente servia pra vigiar os bichos no rancho. Junto iam Raimundo Patriarca e Anísio Gomes, tropeiros alugados que não deviam confiança a ninguém.

Na segunda parada, Serra da Bananeira, o sol cobrou. Noite fechada e o sangue desceu do nariz de Adão feito água de pote rachado. Molhou a camisa, molhou o chão. Anísio benzeu, Raimundo cuspiu de lado: “É sol, menino. Sol que tu tomaste o dia inteiro.” Por um tempo parecia que ia se acabar ali. Mas não se acabou. Deitou no saco de farinha, o sangue estancou, e no outro dia subiu na burra antes dos galos cantarem.

Em Rosilho veio a lição que dói mais que rebenque. Uns moleques da idade dele cercaram Adão no terreiro. Raimundo e Anísio viram. E riram. Deixaram os meninos arrancarem a calça dele no meio de todo mundo pra fazer graça. Adão ficou parado, as pernas finas, a vergonha queimando mais que febre. Ainda bem que parou só nisso. Devolveram a roupa, o povo espalhou. Naquela noite ele vigiou a tropa sem pregar o olho. Aprendeu que homem ruim não vem do mato. Vem de casa.

Ouricuri salvou o resto da viagem. Ali Adão viu o que nunca tinha visto: caminhão roncando grosso, levantando poeira na rua, e um Jipe cortando caminho que nem vento. Ficou de boca aberta, esquecido do sangue e da vergonha.

Ficaram esperando Plínio voltar de Petrolina. Adão, mesmo pequeno, andava era a pé. Buscava água, tangia animal, fazia o que mandavam sem muxoxo. Quando Plínio chegou, tocaram de volta pra Poção.

A viagem se acabou em 1962, talvez 63. Adão voltou outro. Mais calado, mais duro, com sola de pé rachada e olho de quem já viu mundo.

Depois fez muitas viagens pra Ouricuri. Foi crescendo no caminho. O menino ficou na estrada, mas a estrada não largou dele.

E o nome? Naquele tempo era só Adão. Adão Rufina ele adotou muito depois, já homem feito. Mas essa é outra história.

A primeira vez, a que faz tropeiro, foi assim: com sangue, com vergonha e com um caminhão passando na frente, dizendo que o mundo era maior que Dom Inocêncio.

Adão Rufina

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