O Menino da Tropa
Poção, interior de Dom Inocêncio,
Piauí. 1962.
Adão tinha oito anos quando Plínio botou ele na tropa. Ia pra Ouricuri,
na Bahia, e menino de parente servia pra vigiar os bichos no rancho. Junto iam
Raimundo Patriarca e Anísio Gomes, tropeiros alugados que não deviam confiança
a ninguém.
Na segunda parada, Serra da Bananeira, o sol cobrou. Noite fechada e o
sangue desceu do nariz de Adão feito água de pote rachado. Molhou a camisa,
molhou o chão. Anísio benzeu, Raimundo cuspiu de lado: “É sol, menino. Sol que
tu tomaste o dia inteiro.” Por um tempo parecia que ia se acabar ali. Mas não
se acabou. Deitou no saco de farinha, o sangue estancou, e no outro dia subiu
na burra antes dos galos cantarem.
Em Rosilho veio a lição que dói mais que rebenque. Uns moleques da idade
dele cercaram Adão no terreiro. Raimundo e Anísio viram. E riram. Deixaram os
meninos arrancarem a calça dele no meio de todo mundo pra fazer graça. Adão
ficou parado, as pernas finas, a vergonha queimando mais que febre. Ainda bem
que parou só nisso. Devolveram a roupa, o povo espalhou. Naquela noite ele
vigiou a tropa sem pregar o olho. Aprendeu que homem ruim não vem do mato. Vem
de casa.
Ouricuri salvou o resto da viagem. Ali Adão viu o que nunca tinha visto:
caminhão roncando grosso, levantando poeira na rua, e um Jipe cortando caminho
que nem vento. Ficou de boca aberta, esquecido do sangue e da vergonha.
Ficaram esperando Plínio voltar de Petrolina. Adão, mesmo pequeno,
andava era a pé. Buscava água, tangia animal, fazia o que mandavam sem muxoxo.
Quando Plínio chegou, tocaram de volta pra Poção.
A viagem se acabou em 1962, talvez 63. Adão voltou outro. Mais calado,
mais duro, com sola de pé rachada e olho de quem já viu mundo.
Depois fez muitas viagens pra Ouricuri. Foi crescendo no caminho. O
menino ficou na estrada, mas a estrada não largou dele.
E o nome? Naquele tempo era só Adão. Adão Rufina ele adotou muito depois, já homem feito. Mas essa é outra
história.
A primeira vez, a que faz tropeiro, foi assim: com sangue, com vergonha
e com um caminhão passando na frente, dizendo que o mundo era maior que Dom
Inocêncio.
Adão Rufina
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