domingo, 26 de abril de 2026

Mulher tropeira

 MULHER TROPEIRA 

​A Capitã das Veredas

​Nas primeiras décadas do século passado, entre as chapadas do Piauí e os cerrados do Maranhão, o destino de uma mulher costumava ser traçado dentro de quatro paredes. Mas para ela, o destino tinha cheiro de poeira e som de casco de burro. Quando o marido se foi, ela não entregou os pontos. Olhou para os dois filhos e para o sobrinho e decidiu: a tropa não ia parar.

​Aquela pequena comitiva familiar cortava o sertão levando carga para a cidade. Ela não era apenas a mãe; era a guia. Para enfrentar o sol que racha o couro e os perigos da estrada, vestia-se como os homens da lida. Debaixo do chapéu de abas largas, escondia os longos cabelos pretos, amarrados com força, e uma beleza que o tempo e o vento não conseguiam apagar. Na cintura, o metal frio da arma era o aviso de que o respeito ali era lei.

​Mas foi no burburinho de uma feira que sua fama se espalhou como fogo em palha seca. Dois homens, achando que poderiam crescer para cima de uma mulher "sozinha", tentaram humilhá-la. Não tiveram tempo nem de puxar o fôlego. Antes que os filhos ou o sobrinho descessem dos animais, ela mesma resolveu a questão. Partiu para cima e venceu os dois na porrada, no meio da praça, sob o olhar atônito de quem achava que força era coisa só de barba no rosto. Ali, naquela tarde, o sertão inteiro soube quem ela era.

​O patrão, um homem solteiro que vivia para os seus negócios, acompanhava de longe a destreza daquela mulher. Ele via como ela cuidava da tropa e como a carga chegava sempre intacta, sem faltar um grão de mercadoria. A admiração profissional virou um sentimento mais profundo. Ele viu nela a parceira que a solidão da fazenda nunca soube oferecer.

​O casamento foi o encontro de duas forças que se entendiam. Ele deu o conforto da casa grande; ela trouxe a vida e a alegria de uma família pronta. Mas ela não se esqueceu de quem esteve ao seu lado na poeira. Sua primeira condição foi que os filhos e o sobrinho, seus companheiros de estrada, fossem morar na cidade para estudar. Queria que eles trocassem o peso das cangalhas pelo peso dos livros, garantindo um futuro que ela mesma teve que conquistar no braço.

​Viveram felizes e respeitados. E quem passava pela estrada e via aquela senhora de olhar firme na varanda, sabia que ali estava a mulher que provou que o respeito e a coragem não escolhem gênero — nascem na alma de quem sabe guiar o próprio caminho.

​Em honra à vida tropeira.

​Adão Rufina

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